Já deve ter recebido uns tantos “Parabéns” e mais umas “Felicidades” a essa hora. Logo, direi a ti mais nada. Talvez até devesse repeti-las, mas perdi-me no dizer.
Falarei então da Lua. Dessas que vejo à tardinha, são sempre minhas melhores, essas que sempre deixam as horas da espera ansiosas, das quais guardo quase todas as sensações de mais um reencontro, essas que me fazem tão bem.
Outro dia buscava o sentido da lua, mas ela esvaiu-se no céu e tornei a me incompletar. Descobri depois que ela não era das que fossem minhas, mas procurava em mim um lugar para existir, e em mim todos os dias nascia.
Eu ainda não sei por que falei da lua, queria mesmo era falar das flores.
Deixa pra lá!
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*Imagem: Ray Caesar
AP 302
Era já noite, de um domingo nada corriqueiro. Pegar o táxi, pensar cuidadosamente os detalhes da noite, fumar o último cigarro (o tabaco geralmente destoa da sua imagem puritana). Desde que tinha começado o estágio no escritório esse era seu primeiro encontro com um cheque nominal adiantado. Óleos de massagem, combinação de renda preta, cinta-liga, hobby, chicote, algemas, tudo na maleta como ele mesmo pediu. Ah! Não esquecer de escovar bem os dentes antes das buzinadas escandalosas na frente do prédio, senão acaba tendo que chegar mascando chiclete enquanto cheira o pescoço do vice-presidente da empresa. Ela era estudante de direito e o táxi já chegara a sua porta. A noite convida, o rádio informa 22:30, enquanto toca Help!-Beatles, e a cidade parece apagar as luzes do quarto. Ela recebera o endereço por email, referências devidamente enumeradas, enviado provavelmente pela assessora pessoal, o mercado de trabalho tende a ser cada vez mais calculista. Pronto, é aqui: Rua Carijós 1884 Ap 302. Meu nome já havia sido informado na portaria, Suzanne Lins. Ainda tenho que aguentar responder a codinome de prostituta. É preciso galgar andares na vida.
Ele tinha que segurar a ansiedade pra não abrir a porta antes que ela aperte a campanhia. Sempre utilizara aquele mesmo endereço para encontros furtivos em noites de domingo. Já agradecera a sogra que tem, era a primeira coisa que fazia depois de deixar sua esposa pro pacato jantar em família. Hugo Boss nos cantos do corpo, depois do banho, claro. Umas doses de uisque pra não perder o costume. Saint Clair a 7°, safra de 2004. Havia uma sequência pré-determinada na sua cabeça, era metódico, só gozava assim. Tamanha praticidade provinha da especialização em finanças, a faculdade de direito só havia lhe dado o tom refinado.
L'invitation au voyage
Ta bom Sr. Interior, eu me rendo às palavras..As coloco pra fora, se assim desejas. Deixo que me tome pra vc para me perder toda de mim. Jogo baixo o seu, usar Paris com acusações ferrenhas contra minha tentativa de controle. Mas avisa pra ela, que serão só eu e vc nos curtos momentos lascivos e a Catedral de Notre-Dame não verá. Paris é pra ser vista. Eu estive na Ecoute, digo mais, umas duas vezes, quem sabe. Estive lá, más agora saí.A vida continua, Paris é uma cidade belíssima.
*Foto - Ecoute
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